Cartas de amor - II

15:33


Essa é carta mais longa que eu escrevi até agora, na minha coleção de cartas de amor, ela faz parte da categoria de cartas que tem uma história maior por trás, uma história contada a partir de um ponto de vista, que é dada ao leitor, e oculta ao mesmo tempo, como se a carta expusesse os amantes, mas também guardasse alguns de seus segredos, e não se importasse com dados, como um narrador se importaria em um romance.

   

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15.
Eu não sei se um dia eu enviarei essa carta para alguém, ou se meus filhos acabaram lendo em algum sótão cheio das minhas coisas, e talvez eu já esteja morta. Mas sei que estou a escrevê-la devidamente, em um papel para carta, com uma boa caneta, e me preocupando com a aparência da minha letra. E eu sei que preciso escrever sobre ela.
Eu não gosto de manter um diário, me deixa nervosa imortalizar meus dias no papel... Mas eu adoraria imortalizá-la.
Ninguém sabe sobre essa história, imagine meus futuros netos encontrando numa caixa muito velha com memórias da vó, sim, eu pulei de meus filhos para meus netos, só estou me imaginando como uma senhora de idade com segredos dentro de uma caixa.
Essa é uma opção, mas a outra alternativa: para quem eu poderia enviar isso?
Ele. Eu poderia mandar para ele minhas palavras sobre aquele tempo. Aposto que conseguiria seu endereço, eu conheço muitos membros de sua família. Eu, ele e nossas famílias abastadas, no verão de 1973, passando um mês inteiro na casa de campo do meu pai. Éramos namorado e namorada há três anos, tínhamos vinte e um anos, ele era perfeito, cabelo preto brilhante, um sorriso estonteante, jogador de futebol e estudante de advocacia, e eu era perfeita, cabelo marrom brilhante, olhos verdes que minha mãe gostava de pintar em suas telas, ela costumava dizer que eles penetravam tudo e todos, ela era uma artista, e eles falam diferente. Eu dançava balé clássico, e estudava psicologia. Nos olhos da sociedade e de todos os jogos imbecis baseados em aparência e a porra do dinheiro, nós éramos perfeitos, e todos esperavam que nos casássemos logo, nós agíamos como se isso fosse algo que também desejávamos, mas agora eu sei que não tínhamos a menor ideia do que queríamos, já tinham decidido tudo por nós, e não enxergávamos nada além das nossas bolhas.
Os jogos imbecis da sociedade, eles estavam por toda parte e podia ser tão cruéis. Podiam? Eles provavelmente sempre eram.
Ela chegou poucos dias depois de nós. Ela era sobrinha do meu pai, mas raramente a víamos, ela vivia longe com sua família, e eles não eram tão bem de vida quanto meu pai e seus outros irmãos, o pai dela era a ovelha negra desde pequeno e não era muito esperto com dinheiro, ele também gostava muito de jogos de cartas e drogas. Ela era a ovelha negra entre os sobrinhos. Eu tinha ouvido que ela era estranha, que tinha desistido da faculdade duas vezes, que só queria tocar violão e escrever num caderno desgastado que carregava com ela, não tinha habilidades sociais, não conseguia manter uma conversa, nunca estava arrumada, seu longo cabelo ondulado estava sempre bagunçado, não usava maquiagem e odiava salto alto...
Sim, ela estava sempre usando vestidos soltos e descalça, quando necessário ela calçava sapatos baixos e fechados, o couro estava sempre gasto.
A princípio eu não gostei dela. Ela era o pássaro estranho entrando no meu ninho, ela não nos olhava nos olhos e nunca estava interessada nas conversas durante o jantar, ela sorria com frequência, mas só. Um sorriso sereno, sem esforço algum. Quando ela se envolvia em algo social, se distraía rápida e facilmente, com coisas como uma borboleta, o céu, uma árvore... ela mostrava um interesse nessas coisas que você nunca veria nela em uma festa. Meu pai me disse que achava que ela tinha alguma condição que ainda seria descoberta pelo meu próprio campo de estudo, porque ela mostrava sinais de problemas de aprendizado, mas ao mesmo tempo mostrava uma grande Inteligência, dependendo da situação. Meu irmão a chama de A sábia. Ele disse. Ele também sugeriu que eu tentasse falar com ela sobre livros, os grandes autores, sobre música, especialmente blues. Eu fiz careta.
Mas não gostar dela não durou nada, nós começamos a nos aproximar atrás da música, da minha dança, ela gostava de dançar, e eu gostava dos poemas francos que ela escrevia em seu caderno, mas principalmente nos aproximando porque uma vez que você dava o primeiro passo, ela era doce, e te fazia se sentir como a coisa mais importante do mundo. Para Nick, meu namorado perfeito, levou mais tempo... ou ele só achava que não gostava dela... porque gostava demais. Ele reclamou quando viu que eu estava me aproximando muito dela. Ele odiou quando eu confessei que a beijei. Estávamos numa campina, eu a abracei, foi a segunda vez que fiz isso, eu adorava, ela tinha o cheiro que eu imaginava que um anjo tivesse, era seu cheiro natural, ela era macia, e mais bonita do que todos nós, éramos só um bando de manequins de loja. Ela se aproximou da minha boca e aconteceu, ela me tocou de um jeito que me fez tremer.
Nick, se eu te enviar isso, eu disse que você odiou quando eu te contei, mas eu não acho que odiou do jeito que é esperado de qualquer homem traído. Você não se tornou agressivo, você se sentiu excluído da minha vida, deixado de lado, e sim, traído, mas não porque achava que eu te pertencia, mas mais porque você sentiu que eu estava no paraíso e te deixei dormindo em um quarto de janelas fechadas, que foi literalmente o que eu fiz. À noite, nossos pais que gostavam de acreditar que nunca tínhamos transado não sabiam que eu ia até o seu quarto, porque era mais fácil transar lá, não tinha ninguém dormindo no quarto do lado.
Nem foi você que deu a ideia para solucionar nosso conflito. Eu disse que o único jeito era incluí-lo se ela concordasse.
Em uma noite fomos para o quarto dela, que era melhor ainda porque não tinha outros quartos ao redor, e fizemos sexo. Não sabíamos cruzando aquele corredor que era um caminho sem volta. E foi um fracasso para mim, você só queria o corpo dela a noite inteira, vocês dois eram uma imagem de suor, vigor e gemido. Poucos dias depois o sexo só entre nós dois cessou, e íamos até ela juntos toda noite. Também só alguns dias depois, qualquer sexo entre nós dois acabou, e a encontrávamos separadamente. Eu nunca me senti tão livre como quando estava nos braços dela, e nunca senti tanto prazer. Eu me tornei uma viciada, e você também, Nick. Eu sei que ela te abraçava como me abraçava, com calor e cuidado, porque eu comecei a espiar através da fechadura no meio da noite, eu até me toquei uma ou duas vezes. Eu disse que ela te fez se sentir como o centro do Universo, sim, ela fez, sem nenhum esforço aparente ao fazê-lo. Ela ainda é a única pessoa que eu conheci na minha vida que parecia nunca fingir, sabe como usamos uma máscara no trabalho, uma com a família, outra com amigos? Me parecia que ela tinha nascido sem uma máscara e incapaz de forjar uma, essa era sua condição.
As pessoas começaram a notar que estávamos distantes, os futuros noivos, então uma noite você bebeu demais em uma das festas realizadas na casa grande, e na frente de nossos pais, e um monte de gente, você fez um discurso sobre como mesmo que lamentasse muito, você não queria se casar comigo, você queria se casar com ela. Você, o rapaz perfeito, com saliva e uísque pingando dos seus lábios trêmulos, seus lábios vermelhos altamente beijáveis, esses lábios já tinham contado seu desejo para ela na noite anterior? O que ela te respondeu? Ela ignorou com um sorriso reconfortante como se você fosse uma criança? Ela só era dois anos mais velha, mas às vezes parecia ter oitenta anos... tantas vezes. Até no jeito que ela nos tocava, na superfície dos nossos corpos, ou dentro deles.
Ela olhou para você quando você fez seu anúncio, estava sentada na sua mesa, não disse nada, ergueu ligeiramente uma mão, como se fosse tocar seu braço, mas parou. O que você não daria para saber o que estava passando pela cabeça dela?
Eu estava do lado da mesa do coronel, e sua arma estava deitada ali, ele tinha acabado de mostrá-la para mim, eu costumava gostar de armas. Meu cérebro desligou, lágrimas se formaram nos meus olhos... Você as viu? Brilhando como estrelas na noite, junto com os candelabros e luzes cristalinas por toda parte. Eu peguei a arma, derrubei minha taça de vinho rosé, e apontei a arma para minha cabeça.
Houve um grito, e aquele som baixo de choque vindo de todos, como uma onda. Me desculpe, Nick, por todos terem pensando que eu não suportava a ideia de te perder quando eu não aguentava a ideia de perdê-la. Eu te amei, mas aquela garota só fazia o que mandavam, e não sabia nada.
Foi o próprio coronel que conseguiu me desarmar. Me levaram para um quarto, minha mãe implorou que eu tomasse algumas pílulas para dormir. Você ainda estava lá na manhã seguinte, mas ela não. Você a beijou uma última vez? Eu sei que ninguém a viu quando ela partiu, mas você a beijou uma última vez?
Se meus netos estiverem lendo isso, eu, e ele, partimos para a cidade o mais rápido possível. Tive que ver um terapeuta, e nunca mais parei de ir. Até uma terapeuta precisa de terapia. Nick, o rapaz perfeito, se tornou o homem perfeito, mas não demorou para que seu problema com álcool desmanchasse sua máscara. Me perdoe, Nick, eu tive meus demônios também, eles só eram de um tipo mais fácil de esconder.
O pai dela a protegeu até morrer de overdose, dizendo que ela estava morando em outro lugar e não queria ver Nick, já que eles não sabiam que eu estava morrendo por ela. Ele era um homem  sensível, também disse que não era porque ela não se importava com ele (conosco) e seus (nossos) sentimentos, mas porque se importava. Ele disse que ela nos amava. Dessa vez ele disse no plural.
Mas eu ainda queria seu corpo também, tenho certeza de que para Nick não era diferente, quando ele estava dentro dela, a lambendo, a beijando em qualquer lugar, ele se tornava um homem louco, apaixonado, primitivo, em alguma cerimônia do Sol, e quando eu a tocava por dentro, quando ela também o fazia, quando uma fazia a outra se curvar, quando eu me deitava com ela, eu me tornava uma ninfa, banhada de vinho e luz, só dançando, dormindo, ou gemendo.
Quinze anos depois, eu ainda penso em encontra-la de novo. E você?





ENGLISH:

15.
I don’t know if I’ll ever send this letter to anyone, or if my children will read it in an attic full of my stuff, and maybe I’m dead. But I know I’m writing it properly, in a letter paper, with a good pen, and worrying about how my handwriting looks. And I know I need to write about her.

I don’t like keeping a diary, it makes me nervous to immortalize my days on paper… But I would love to immortalize her.
Nobody knows about this, imagine my future grandchildren finding it out on a very old box with memories from grandma, yes I jumped from my children to my grandchildren, just imagining myself as an old lady with secrets in a box.
That’s one thing, but the other option: who could I send this to?
Him. I could send him my words about that time. I bet I could find his address, I know many members of his family. Me, him, and our rich families on a summer in 1973, spending the whole month in my father’s country house. We’ve been boyfriend and girlfriend for three years now, and we were both twenty one years old, he was perfect, black shiny hair, strikingly beautiful smile, football player and law student, and I was perfect, brown shiny hair, green eyes that my mother liked to paint on canvas, she used to say they penetrated anyone and anything, she was an artist, and they talk different. I was a ballet dancer and a psychology student. In the eyes of society and all its silly games based on looks and fucking money, we were perfect, and everybody expected us to be married soon, we acted like it was something we wanted too but now I know we had no clue what we wanted, everything was decided for us, and we couldn’t see anything past our bubbles.
The silly games of society, they’re everywhere and they can be so very cruel. Can be? They probably always are.
She came only a few days after we’ve been there. She was my father’s niece, but we rarely saw her, she lived far away with her family, and they were not as rich as my father and his other siblings, her father was the black sheep since birth and was not very smart with money, he was also fond of card games and drugs. She was a black sheep between nieces and nephews. I had heard she was odd, had dropped out of college two times now, she only wanted to play the guitar and write on a messy looking notebook, she had no social skills, couldn’t keep a conversation, and was never put together, her wavy long hair was always all over the place, she didn’t put make up on and hated heels…
Yes, she was always wearing flowy dresses and barefoot, when needed she’d put some low closed shoes on, the leather was always worn out.
I didn’t like her first. She was the odd bird coming to my nest, she didn’t look us in the eye and was never very interested in our dinner conversations, she would smile often, but that was it. A serene smile, showing no effort. When she engaged in something social she would get distracted fast and easily, by things like a butterfly, the sky, a tree… she’d show this things an interest you would never see in her during a party. My father told me he thought she might have some condition yet to be discovered by my own field of study in the future, because she showed signs of learning disabilities, but at the same time showed great intelligence. My brother calls her the wise one. He said. He also suggested I tried talking to her about books, the great writers, and about music, especially blues. I frowned.
But me disliking her didn’t last at all, we started bonding over music and my dancing, she liked dancing, and I liked the honest poems she’d write in said notebook, but mainly bonding because once you took the first step she was sweet, and made you feel like the most important thing in the world. For Nick, my perfect boyfriend, it took more time… or he just thought he didn’t like her… because he liked her way too much. He complained when he saw I was getting too close to her. He hated when I confessed we kissed. We were at a meadow, I held her, it was the second time I did it, I loved it, she smelled like I think an angel would, it was her natural smell, she was soft, and more beautiful than all of us fucking store mannequins. She came close to my mouth and it happened, she touch me in a way that made me shake.
Nick, if I send you this, I said you hated when I told you but I think not in a way man are expected to act when betrayed. You were not aggressive, you felt excluded from my life, left out, and yes, betrayed, but not because you felt I belonged to you, more because you felt we were in heaven and I left you sleeping in a room with windows closed, which I literally did. At night, our parents who liked to believe we were not having sex didn’t know I’d sneak into your room, because it was easier to fuck there, there’s no one on the room next door.
It wasn’t even you who came up with the solution for our conflict. I said the only way was include him if she agreed.
We went one night to her room, that was even better because it had no rooms around, and we had sex. We did not know crossing that hallway how it was a path with no turning back. And it was a fail for me, you only wanted her body that night, you both were an image of sweat, vigorous movement and moans. A few days later we stopped having sex only me and you, and we went together to her every night. Also just a few days later we stopped having sex at all, and we would meet her separately. I never felt freer than in her arms, and I never felt such an enormous amount of pleasure. I became an addict, and so did you, Nick. I know she held you like she held me, with warmth and care, because I started picking through the lock in the middle of the night, I even touched myself once or twice. I said she made you feel like the center of the world, yes, she did, with no apparent effort to do so at all. She was the only person I ever met in my whole life that seemed to never ever pretend, you know how we wear a mask at work, a mask with family, a mask with friends? It seemed to me she was born with no mask and unable to manufacture one, that was her condition.
People were noticing we were distant, the soon to be fiancés, so one night you drank too much in one of the parties held in the big house, and in front of your parents, my parents, and a whole bunch of people, you made a speech about how even though you were sorry about it, you did not want to marry me, you wanted to marry her. You, the perfect boy, with drool and whisky dripping from your trembling lips, your red highly kissable lips, did those lips had already told her a night before about your wish? What did she tell you? Did she ignore it with a comforting smile like you were a child? She was only two years older than us but she seemed 80 sometimes… so many times. Even the way she touched us, in the surface of our bodies, or inside them.
She looked at you when you made your announcement, she was sat at your table, she didn’t say anything, she put her hand slightly up, like she was going touch your arm but stopped herself. What would you give to know what went through her head?
I was near the coronel’s table, and his gun was laying there, he had just showed it to me, I used to like guns. My brain shut down, tears formed in my eyes… Did you see them? Shining like stars in the night with all the chandeliers and crystal lights everywhere. I took the gun, dropped my cup of rosé, and pointed it to my own head.
There was a scream, and that low shock sound coming from everybody, like a wave. I’m sorry, Nick, that everybody thought I couldn’t stand the thought of losing you when I couldn’t stand losing her. I had loved you once, but that girl only did when she was told, and knew nothing.
It was the coronel himself that was able to disarm me. They took me to a room, my mother begged me to take sleeping pills. You were still there the next morning, but she wasn’t. Did you kiss her one last time? I know nobody saw when she left, but did you kiss her one more time?
If it’s my grandchildren reading this, me, and him, left to the city as soon as possible. I had to see a therapist, and never stopped seeing him. Even a therapist needs a therapist. Nick, the perfect boy, became the perfect man, but it didn’t take much to his drinking problem pull through his mask. I’m sorry about that, Nick, I had my demons too, they were just the kind that you can hide more easily.
Her father protected her until his overdose death, saying she was living somewhere else and didn’t want to see Nick, since they didn’t know that I was dying for her. He was a sensible man, he also said that it wasn’t because she didn’t care for him (us) and his (our) feelings, but because she did care. He said she loved us. This time he said us.
But I still wanted her body too, I am sure Nick wanted it too, when he was inside her, licking her, kissing her wherever, he became a crazy passionate primitive man in some Sun ceremony, and when I touched her from the inside, when she did it too, when we made each other bend, when I laid with her, I became a nymph, bathed in wine and light, just dancing, sleeping, or moaning.
Fifteen years later, I still think I’ll find her again. Do you?

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