Garotos não choram

13:33


Jeane sabia melhor que ninguém o quanto o marido estava abalado. Seu amor por ele e todos os anos de convivência a ensinaram o funcionamento do sistema nervoso de Paulo Henrique. Por trás da raiva de um chefe que quer botar ordem, tinha um homem desesperado que queria chorar. 

Mas ele nunca chorava, decidira ao decorrer dos anos que ele não precisava chorar. Voltando no tempo, ele se lembrava com detalhes dos momentos em que chorara na vida, não tinham sido muitos, mas tinham sido em grande maioria, numa mesma época.
Uma vez ouvira de Davi, que um dia ele ia chorar até morrer


, e explodir, como um vulcão há décadas adormecido; não sabendo as dores que tinham secado os olhos do pai. Na época o filho, com treze anos, ficou de castigo – castigos dos quais Davi, de uma forma ou de outra, se esquivara durante a infância e adolescência, ignorando as ordens.

Ambos nunca tinham sido amigos, o problema era – e Jeane sabia dele com toda a certeza – que pai e filho se odiavam publicamente, e se amavam em silêncio. 

Gritando ali na sala, culpando totalmente a incompetência do enfermeiro e a loucura do filho, Paulo expressava sua angústia. Jeane queria abraçá-lo, mas era melhor esperar que os filhos saíssem. Ninguém na casa via quando Jeane e Paulo de fato pareciam se amar, isso pertencia a eles. Se alguém tinha que conhecer o homem sentimental dentro dele, que fosse só Jeane e ninguém mais.
Claro que Paulo Henrique não era sempre um homem duro, mas havia algo de autocontrole nele até quando ria, se descontraía, ou tentava demonstrar afeição. E era aí que Jeane enxergava mais um problema entre Davi e Paulo, a natureza do filho batia de frente com o comportamento que o pai sustentava. Davi também tinha a capacidade de eventualmente abalar as rígidas estruturas de Paulo, e isso ele não podia admitir.

Paulo Henrique tivera na vida muito mais momentos em que precisava se mostrar imbatível, do que momentos em que ele podia ser apenas humano. E ali, alterado na sala com a família, ele mostrava sua humanidade, mas só para aqueles que estavam interessados em realmente ver. Ele pegou um olhar diferente, concentrado, da filha Maria Clara sobre ele. Quando viu que ele percebeu, ela foi a primeira a deixar a sala.

Depois disso, não demorou para que Jeane pudesse abraçá-lo. Todos se recolheram, e ela tentou acalmar Paulo, depois de terem subido para o quarto dos dois. Ela argumentou que já tinham tomado absolutamente todas as providências possíveis para a busca do filho. Não estava realmente calma, mas para mantê-lo firme, se fazia de forte do seu jeito suave, ele precisava disso.





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