Fugitivos

12:38


Dentro do carro, Davi ficou um tempo estático, mexendo só as mãos para agarrar sua mochila no colo. Quando saíram do condomínio de casas, e depois se afastaram do lado mais residencial do bairro, ele ficou observando o trânsito que se intensificava. Então uma ideia parecida com a da noite anterior, veio em sua cabeça: fugir.

Primeiro não levou em consideração, mas conforme o caminho avançava, a ideia também o fazia dentro de sua mente. Seu dedo batia na janela quase formando uma melodia, quando ele conseguiu destravar a porta sem que os outros no carro ouvissem. Olhava para os dois a sua frente, seguia seus olhos para ver onde dava, mas antes que abrisse a porta e saísse correndo, aproveitando que tinham alcançado uma rua com o tráfico parado, Davi cometeu o erro de dar uma boa olhada no ambiente fora do automóvel. 

Pela janela ele viu uma rua extremamente movimentada, pessoas batendo com os corpos no carro para passarem, apressadas, distraídas, um dia normal do cotidiano urbano, ou uma multidão frenética, e assustadora para um portador de fobias.
O carro andava muito lentamente, depois parava por mais um tempo até andar um pouco de novo, mas ele não conseguia abrir aquela porta destravada.

Dentre as pessoas compondo aquela multidão, Carol caminhava com sua mochila nas costas, procurando sabe Deus o que. No momento em que saía da calçada, os carros começaram a se mover, e ela parou, esperando uma brecha para atravessar no meio do trânsito. Um carro parou bem na sua frente, ela já ia andando para um dos lados com espaço entre os veículos, quando seus olhos encontraram a janela daquele carro.

Era ele de novo, seus olhares se cruzaram, mais de perto agora. 

Carol não se moveu, apenas olhou o homem todo de branco ao lado do motorista, vestimenta que ela conhecia muito bem, depois voltou os olhos para Davi, viu sua mão na trava solta, e seguiu a direção da outra mão, que parecia estar prestes a abrir a porta, mas não o fazia.

Olhando para ela, a cada segundo ele sentia que ia abrir a porta, mas nunca abria. O carro andou um mínimo espaço, o suficiente para assustá-los os fazendo acreditar que o veículo partiria. Ambos viram seus rostos entrando em estado de alerta, Davi se apoiou mais em direção à janela, e Carol deu um passo na direção do carro.

Davi abriu a porta, mas não tão rápido quanto seria suficiente e sem escancará-la, os outros homens dentro do carro ouviram o barulho, ele viu sua chance perdida. 

De repente, sem precipitar nada do que se daria a seguir, Davi viu a porta se abrindo mais, tudo aconteceu muito rápido, mas na sua memória aquele momento ainda correria em câmera lenta. Num movimento ágil Carol abrira a porta e puxara seu braço. Com a outra mão, Davi puxou sua mochila, e saiu correndo, arrastado pela bela estranha antes de tomar o impulso para correr mais rápido. 


Olhando para trás algumas vezes viam – não muito bem – o enfermeiro correndo como um atleta atrás dos dois. Davi a sentiu apertando mais seu braço, e aquilo o fez correr ainda mais, sem saber de onde tirava o fôlego, e como conseguia passar no meio de toda aquela gente.

Inesperadamente, Davi viu a multidão que lhe causava um medo irracional, se tornar sua aliada. Dentre todas as cabeças, os pés com pressa, o enfermeiro os perdeu de vista. Carol conseguiu avistá-lo diminuindo a velocidade da corrida, já sem saber quem seguia. Seu coração batia forte e sua garganta seca pedia por ar, então ela se enfiou no primeiro beco que viu, ainda com o estranho pela mão.

Eles precisavam respirar.


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