Love is hard

00:28

-     É muita dor pra engolir, pai.
Eu disse baixinho.
Ele estava morto há alguns meses, e ainda não tinha passado como me disseram que ia passar, mas tudo bem, porque não me deram uma data.
Meu pai era duro comigo, e eu levei muitos anos para entender as várias vezes em que parecia que eu não era o suficiente para ele.
Uma vez eu tinha ficado com uma espinha de peixe atravessada na garganta, e ele me ajudou a tirar, mas eu também tinha que fazer força para engolir, então ele gritou:
-     Vai logo, força!
Eu era bem pequena. Vinte anos depois, olhando para a grama verde no parque, falando sozinha – mesmo que baixinho – naquele dia gelado, me pareceu o mesmo dia da espinha de peixe.
Mas a sensação foi rápida, olhei para a minha vida, agora uma adulta, e muita coisa tinha mudado, muita. Eu aprendi muito sobre mim mesma, aprendi que eu era do tipo de pessoa que tinha esse desejo cravado por dentro de que só o essencial existisse, se pudéssemos só viver de amor... A pior parte era que eu sempre achei que podemos, não conseguia entender, aceitar, por que não era possível. Isso vivia me magoando. Eu sei o que meu pai diria:
-     As coisas não são assim. A vida é dura.
Mas ele não sabia que eu tinha total consciência da dureza da vida. E quem disse que o amor não é duro? Você tem que ser tão corajoso, por amor.
Ele também dizia muito, que por conseqüência eu tinha que ser dura, para sobreviver; nunca funcionou, pai.
Em vários tons diferentes ele falava de como eu não teria sempre meus pais por perto, que ele não poderia sempre cuidar de mim.
-     Eu não quero ser dura, pai.
Eu disse baixinho, de novo. Era como se ele ainda estivesse ali.  
O único sonho que eu tivera com ele depois de sua morte tinha sido estranho, estávamos distantes, nos estranhando, mas eu podia sentir o grande amor de pai e filha apertadinho ali, dentro do conflito.
-     Papai, o que aconteceu?
Perguntei, sentindo a ardência no rosto que vem antes do pranto. Mordi meus lábios. Eu sei o que aconteceu, ninguém sabia melhor do que eu. Papai perdeu mamãe porque era um homem fechado, depois ele me perdeu pelo mesmo motivo. Eu demorei a entender por que ele era duro comigo e também demorei a ver por que ao mesmo tempo em que eu me reaproximava dele, eu me distanciava.  Quando vi isso, dei meu máximo para melhorar as coisas. Meu máximo não era tão bom quanto o ideal que eu tinha na minha mente, na verdade, não chegou nem perto de ser. Meu pai esperava muito de mim. Eu esperava muito de mim.
Então eu entendi que a dor uma vez engolida, ainda fica dentro de você. O que estava demorando não era o cessar da dor, mas sim o ato de incorporar a nova dor em mim e viver com ela.
Quando um garotinho deixou sua bola de futebol rolar até meu pé, eu estava implorando, ali quieta, que o mundo não exigisse de mim, perder aquilo que eu tinha na idade daquele garotinho, aquilo que eu ainda mantinha dentro de mim, uma espécie de inocência complicada de explicar, porque depois de tanta coisa, eu ainda a tinha, por isso eu não podia ser dura, não era possível.
Não que eu não tivesse tentado mudar, eu tentei, porque é errado ser escravo de si mesmo. Mas no fim, é certo ser fiel a si mesmo, e eu terminei minha tentativa satisfeita por eu não ser capaz de fugir do meu espírito. Eu estava há alguns anos bem segura do que era isso, meu espírito, Eu. Aí ele morreu, e eu tive dias de gritos e lágrimas, de refletir demais, tudo para entender que a tristeza estava confundindo aquela minha certeza do que sou eu.
E lá estava eu, fazendo de novo, pensando demais, ao lado da minha bicicleta, num lugar agradável aonde eu devia estar me distraindo.
-     Então é isso? Você está vivendo sua vida, do melhor jeito que consegue, um dia, você perde alguém que ama, e perde a cabeça, sai dos trilhos, fica desequilibrada, e começa a falar sozinha... no meio de um parque.
Uma mulher que passava por mim me olhou estranho, me desaprovando ao notar que eu falava sozinha. Eu subi na minha bicicleta, coloquei os fones do meu celular, You’ve got to hide your love away  começou a tocar e eu saí dali. O vento batia no meu cabelo, avançava contra meu rosto, e eu estava mais sozinha, eu sabia que tinha minha mãe e outras pessoas que me amavam, mas não era o suficiente.
A pequena garota que ficava se debatendo, como um peixinho fora da quantidade de água que realmente necessitava.
Nada tinha mudado.


- Michelle Ribeiro


"Though once you ruled my mind,
I thought you'd always be there, and I'll always hold onto your face,
But everything changes in time and the answers are not always fair

Your lover and baby will cry, but your presence will always remain,
Is this how it was meant to be?
You meant something more to me than what many people will see

They say that you've passed away
And I hope that you've gone to a better place"

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