Incidente no Café Martinelli

16:14




- Não tem problema, eu não durmo. – Ana riu para ele e dele, e perguntou:
- Nunca?
- Acho que não. – respondeu, depois bebeu um gole do cappuccino e olhou através do balcão. Pedro não olhava muito para as pessoas. Ela sabia disso, e achava que os olhos das pessoas o intimidavam.
Depois que ela tirou o olhar de cima dele, ficaram um longo tempo em silêncio. Ele não tocou na quiche que ela pediu para ele, só acendeu um cigarro. Ela comeu lentamente, gostando de não estar sozinha.
Depois de terminar seu cigarro, ele começou a pensar no que dizer. Não conseguiu pensar em nada além do assunto que eles estavam compartilhando.
- Eles disseram que ela estava muito perdida e confusa ao morrer.
- Como poderia ser diferente?
- Mas ela sabia que ia morrer.
Ela não questionou a informação, Pedro e Helena praticamente moravam juntos, ele devia saber o que dizia.
- Eu também sei, você também sabe. E ainda terei medo, ainda chorarei, e pensarei feito uma idiota em tudo que me vier à cabeça, com esperança. Minha avó tinha noventa e oito anos e teve medo minutos antes de morrer.
- Mas eu disse a ela que ela ia morrer. Ela confiava em mim.
- Por que você disse isso? – ela perguntou largando sua xícara no balcão e o encarando.
Ele olhou para Ana e depois desviou o rosto, não aguentava por muito tempo. Tentou levantar a cabeça e falar direito com ela, fixou os olhos inexpressivos em qualquer coisa e acendeu outro cigarro.
- Eu disse para Helena há três anos que eu a machucaria, que eu não ia planejar ou desejar, mas eu a faria sofrer, como eu fazia com todos que amava e que também me amavam.
Ele viu a expressão de surpresa nada disfarçada dela e já esperava essa reação. Fugiu da visão daqueles olhos verdes dobrando de tamanho, de novo, e continuou.
- Porque eu era o que era. Porque eu sempre precisei da solidão e dos meus alimentos mais sujos, dos meus vícios tão variados. Porque eu me entediava até mesmo com o amor, o amor de verdade.
Ela sempre soube que ele era considerado excêntrico, mas dentro do grupo de amigos ele era só mais um. Mais um jovem liberal, mais um perdido na geração da rapidez mas bem sucedido pela sua capacidade, mais um curioso das drogas dando asas a sua pulsão de morte. Mas certos detalhes ela não ousaria definir como ele estava fazendo. Ninguém melhor do que ele para fazer isso, e apesar de assustada, ela estava satisfeita que ele lhe contasse essas coisas. Ambos estavam frágeis e talvez mais tarde ela começasse a falar daquela maneira.
- Eu disse isso para ela, eu me lembro claramente, foi naquele restaurante Sattva na Av. Rebouças. Helena não comia carne e nem eu na época. Ela gostava de lá. – ele saiu do café Martinelli por um momento, Ana viu mais uma das demonstrações de falta de atenção dele e estava acostumada. Quando ele voltou, ela também voltou para o assunto deixando de observar seu devaneio.
Mesmo sentindo o impacto, mesmo se vendo paralisada e sem ação na frente dele, ela precisava perguntar, ela sempre precisava falar e saber.
- O que? Mas como...
- Como eu vivo assim? Como ainda me amam? É a monótona decadência do mundo. – ele riu de si mesmo depois, porque riria de quem tivesse dito aquilo.
- O que ela disse? – Ana perguntou muito séria, depois de recuperar as palavras e se tornar mais interessada do que surpresa.
- Ela me encarou como você faz, mas com bom humor, achou graça. – ele viu o rosto de Helena sorrindo para ele no restaurante. Dessa vez aquela viagem foi mais rápida e ele concluiu ao voltar dela:
- Eu tive de apertar o queixo dela e falar que era sério. E antes que você pergunte, ela fez o de sempre.
- Ela te amou.
Aquilo foi triste e nostálgico, desviou as mentes dos dois os fazendo lembrar como Helena era. Ela sempre amava, sempre era intensa sem se preocupar com o que a custaria.
E ninguém entre eles nunca falava sobre isso, mas todos sempre acabavam amando Pedro, todos seus amigos e família, que já eram poucos, fariam tudo por ele mesmo se ele não merecesse.
Mais uma pausa em silêncio e o isqueiro dele estourou mais uma vez para acender o terceiro cigarro.
- Ainda não entendo porque a disse que ela ia morrer.
- Me perdoe por ter perdido o foco, acontece com freqüência. – pela primeira vez ela ouvia isso da boca dele – Minha mãe me disse que as drogas, lícitas e ilícitas, estão comendo meu cérebro, enquanto me deixam distraído e perdido, como num prelúdio ou uma preparação. Viu? Aconteceu de novo.
- Eu estou ouvindo. – ela não sabia por que ainda procurava os olhos dele se sabia que não obteria muita resposta.
- A família dela é católica, acho que alguns de vocês não sabiam que é mais que isso, não é só se dizer católico, eles organizavam tudo na paróquia e seu irmão mais novo está se preparando para ser um padre. Acho que isso você sabe.
Ela balançou a cabeça afirmativamente e ele a olhou por um momento, uma ouvinte tão concentrada, quase pediu para ela parar de olhar para ele.
- Não me odiavam porque não me conheciam, eu atuava quando os via, uma máscara brilhante, ser outra pessoa por algum tempo, eu até me divertia com isso. – ele fez uma pausa dramática para uma verdade que seria muito forte para Ana.
- Eles nunca contariam a verdade para todo mundo. Ela atirou na cabeça.
Ana tremeu. Começou a pensar em muitas coisas e seu coração disparou. Porque ela sabia que o amava, e viu que a mão dele estava sobre a dela quando ele terminou suas confissões.


Michelle Ribeiro

You Might Also Like

0 comentários

Popular Posts

Like us on Facebook

Flickr Images

Subscribe