Incidente no Café Martinelli II

18:15

- Eu disse isso para ela, eu me lembro claramente, foi naquele restaurante Sattva na Av. Rebouças. Helena não comia carne e nem eu na época. Ela gostava de lá. – ele saiu do café Martinelli por um momento, Ana viu mais uma das demonstrações de falta de atenção dele e estava acostumada. Quando ele voltou, ela também voltou para o assunto deixando de observar seu devaneio.

Mesmo sentindo o impacto, mesmo se vendo paralisada e sem ação na frente dele, ela precisava perguntar, ela sempre precisava falar e saber.
- O que? Mas como...
- Como eu vivo assim? Como ainda me amam? É a monótona decadência do mundo. – ele riu de si mesmo depois, porque riria de quem tivesse dito aquilo.
- O que ela disse? – Ana perguntou muito séria, depois de recuperar as palavras e se tornar mais interessada do que surpresa.
- Ela me encarou como você faz, mas com bom humor, achou graça. – ele viu o rosto de Helena sorrindo para ele no restaurante. Dessa vez aquela viagem foi mais rápida e ele concluiu ao voltar dela:
- Eu tive de apertar o queixo dela e falar que era sério. E antes que você pergunte, ela fez o de sempre.
- Ela te amou.
Aquilo foi triste e nostálgico, desviou as mentes dos dois os fazendo lembrar como Helena era. Ela sempre amava, sempre era intensa sem se preocupar com o que a custaria.
E ninguém entre eles nunca falava sobre isso, mas todos sempre acabavam amando Pedro, todos seus amigos e família, que já eram poucos, fariam tudo por ele mesmo se ele não merecesse.
Mais uma pausa em silêncio e o isqueiro dele estourou mais uma vez para acender o terceiro cigarro.
- Ainda não entendo porque a disse que ela ia morrer.
- Me perdoe por ter perdido o foco, acontece com freqüência. – pela primeira vez ela ouvia isso da boca dele – Minha mãe me disse que as drogas, lícitas e ilícitas, estão comendo meu cérebro, enquanto me deixam distraído e perdido, como num prelúdio ou uma preparação. Viu? Aconteceu de novo.
- Eu estou ouvindo. – ela não sabia por que ainda procurava os olhos dele se sabia que não obteria muita resposta.
- A família dela é católica, acho que alguns de vocês não sabiam que é mais que isso, não é só se dizer católico, eles organizavam tudo na paróquia e seu irmão mais novo está se preparando para ser um padre. Acho que isso você sabe.
Ela balançou a cabeça afirmativamente e ele a olhou por um momento, uma ouvinte tão concentrada, quase pediu para ela parar de olhar para ele.
- Não me odiavam porque não me conheciam, eu atuava quando os via, uma máscara brilhante, ser outra pessoa por algum tempo, eu até me divertia com isso. – ele fez uma pausa dramática para uma verdade que seria muito forte para Ana.
- Eles nunca contariam a verdade para todo mundo. Ela atirou na cabeça.
Ana tremeu. Começou a pensar em muitas coisas e seu coração disparou. Porque ela sabia que o amava, e viu que a mão dele estava sobre a dela quando ele terminou suas confissões.

Michelle Ribeiro

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