Incidente no Café Martinelli I

22:37


- Não tem problema, eu não durmo. – Ana riu para ele e dele, e perguntou:
- Nunca?
- Acho que não. – respondeu, depois bebeu um gole do cappuccino e olhou através do balcão. Pedro não olhava muito para as pessoas. Ela sabia disso, e achava que os olhos das pessoas o intimidavam.
Depois que ela tirou o olhar de cima dele, ficaram um longo tempo em silêncio. Ele não tocou na quiche que ela pediu para ele, só acendeu um cigarro. Ela comeu lentamente, gostando de não estar sozinha.
Depois de terminar seu cigarro, ele começou a pensar no que dizer. Não conseguiu pensar em nada além do assunto que eles estavam compartilhando.
- Eles disseram que ela estava muito perdida e confusa ao morrer.
- Como poderia ser diferente?
- Mas ela sabia que ia morrer.
Ela não questionou a informação, Pedro e Helena praticamente moravam juntos, ele devia saber o que dizia.
- Eu também sei, você também sabe. E ainda terei medo, ainda chorarei, e pensarei feito uma idiota em tudo que me vier à cabeça, com esperança. Minha avó tinha noventa e oito anos e teve medo minutos antes de morrer.
- Mas eu disse a ela que ela ia morrer. Ela confiava em mim.
- Por que você disse isso? – ela perguntou largando sua xícara no balcão e o encarando.
Ele olhou para Ana e depois desviou o rosto, não agüentava por muito tempo. Tentou levantar a cabeça e falar direito com ela, fixou os olhos inexpressivos em qualquer coisa e acendeu outro cigarro.
- Eu disse para Helena há três anos que eu a machucaria, que eu não ia planejar ou desejar, mas eu a faria sofrer, como eu fazia com todos que amava e que também me amavam.
Ele viu a expressão de surpresa nada disfarçada dela e já esperava essa reação. Fugiu da visão daqueles olhos verdes dobrando de tamanho, de novo, e continuou.
- Porque eu era o que era. Porque eu sempre precisei da solidão e dos meus alimentos mais sujos, dos meus vícios tão variados. Porque eu me entediava até mesmo com o amor, o amor de verdade.
Ela sempre soube que ele era considerado excêntrico, mas dentro do grupo de amigos ele era só mais um. Mais um jovem liberal, mais um perdido na geração da rapidez mas bem sucedido pela sua capacidade, mais um curioso das drogas dando asas a sua pulsão de morte. Mas certos detalhes ela não ousaria definir como ele estava fazendo. Ninguém melhor do que ele para fazer isso, e apesar de assustada, ela estava satisfeita que ele lhe contasse essas coisas. Ambos estavam frágeis e talvez mais tarde ela começasse a falar daquela maneira.

(...)
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Michelle Ribeiro

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